| História da BNIV

"Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um
novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim..." Chico Xavier
Aqui descobrirão a aventura que foi este começo.
A BNIV começou por ser um sonho de alguns escuteiros da Região do Porto que após a realização da actividade para Caminheiros "Rumos do Homem Novo" (1 e 2) e da actividade para Dirigentes "Novos Rumos", tiveram a ideia de criar um Centro Escutista na Drave dedicado à espiritualidade, desde aí após muitos percursos, caminhos, Rover, Trilhos, caminhadas e pegadas de cada um (já de todo o país) se transformou na ideia de criar a Base Nacional da IVª.
Este é o nosso tributo a quem descobriu a Drave e a quem nos apresentou a estas pedras que nos fazem querer voltar.
Aventurem-se por estas palavras, vale a pena (Caminheiro, és mais que pó!):
Artigo sobre o Centro Escutista da Drave na Flor de Lis de Fevereiro e Março de 1995
A ideia de construir um centro escutista vocacionado para a descoberta da espiritualidade, nasceu há cerca de quatro anos, a quando da preparação do Rumos da Consciência, actividade destinada a caminheiros. Esta foi organizada pelo departamento da IV secção da Região do Porto, com o intuito de discutir os códigos de valores, no entanto, quer durante a sua preparação quer a sua realização, pareceu-nos urgente a formação de um centro escutista onde as questões da espiritualidade pudessem ser vividas e discutidas por todos.
Com a realização do Rumos do Homem Novo, no ano seguinte, descobrimos Drave, local que achamos ideal para a instalação do ambicionado Centro.
Mas afinal o que é a Drave?
Uma Aldeia perdida numa cova entre as Serras da Freita e S. Macário, situada no Concelho de Arouca, isolada do mundo, habitada apenas por dois anciãos da grande Família dos Martins. É um aglomerado de casas de xisto que se confundem com as cores da Serra, construídas em tomo de urna Capela que, de há algum tempo a esta parte, é branca e coberta de telha. No fundo da Aldeia, confluem três ribeiras. Ao seu redor, algumas leiras para cultivo e um velho sobreiral. Abundam as colmeias. As cabras habitam os montados, vigiadas por pastores das povoações das redondezas.
O acesso por meios motorizados é impossível.
Se parece perdida no espaço, esta mesma sensação não é menor em relação ao tempo.
A degradação vai impondo as suas marcas e o desmoronar progressivo das velhas paredes, após os telhados, é um processo há muito em curso que ameaça a sobrevivência de uma Aldeia das mais belas entre as típicas Aldeias serranas do interior português.
É uma terra que parou. Onde o progresso não chegou. Onde os sons que se ouvem são apenas e ainda, os dos elementos da natureza aliados aos dos mais rudimentares instrumentos com que o Homem age sobre ela, numa relação estreita de harmonia e sobrevivência árdua: a água que corre e tomba pelos socalcos íngremes das encostas, a voz altiva e solene das rapinas e o canto amigo das pequenas aves, o vento a brincar por entre os poucos Castanheiros, Sobreiros e Pinheiros e arbustos rasteiros. A sobrepor-se, não mais que a voz cansada dos que a habitam, o soar lento e compassado da enxada ferindo a terra ou o chiar já raro do carro de bois.
Foi na Drave e para a Drave que alguns Escuteiros do Corpo Nacional de Escutas sonharam algo que agora se toma um projecto de dimensão nacional, no Escutismo Católico Português.
A ideia, muito simplesmente, consiste em tomar a Drave num Centro Escutista: recuperá-Ia arquitectonicamente, devolvendo-lhe a beleza original ameaçada pela ruína, e criar aí um Centro de actividades escutistas particularmente orientadas para a descoberta da Espiritualidade, através da comunhão com a Natureza, urna forma diferente de encarar a Educação Ambiental.
Já por várias vezes os Escuteiros do CNE, estiveram na Drave, em actividades genericamente designadas por Rumos, organizadas pela Região do Porto, mas que progressivamente foram sendo conhecidas e participadas por outras Regiões. Nestas iniciativas ensaiou-se um modo de entender e praticar a Educação Ambiental que parte da consideração do próprio Homem colocado perante os seus valores e as suas opções fundamentais, num desafio com uma forte componente espiritual. A certeza que anima os que se dedicam a este Projecto do Centro Escutista de Drave é a de que só um Homem Novo, sujeito de um novo modo de pensar e de agir, será capaz de uma relação nova com o ambiente: relação de equilíbrio e de harmonia. Na Drave e nas serras circundantes, respira-se este equilíbrio e esta harmonia. Por isso é que este espaço serve os objectivos do Projecto e ele foi pensado lá e para lá.
Em perspectiva estão, já, algumas actividades adequadas ao espaço e às finalidades prosseguidas pelo Centro. Algumas serão de âmbito sócio-cultural, relacionadas com as práticas rurais tradicionais, como a ceifa, ou a desfolhada e a vindima, ou o fabrico do pão, do queijo e dos fumados, do linho e da lã ou a matança do porco, seja na Drave, seja nas aldeias da vizinhança.
Outras serão mais voltadas para a relação com a Natureza, como sejam os circuitos pedestres, as zonas de escalada, os percursos de bicicleta de montanha, de orientação, os Trilhos de Descoberta da Natureza, os Raid Aventura, a descida de rápidos e outras ainda a definir.
Um terceiro tipo de actividades será o das especificamente preparadas para cada Grupo, caracterizadas por uma procura consciente - explicitando o que nas outras está implícito dos valores da Educação da Ambiental e da relação do Homem com a Criação.
Também aqui o modo de proceder habitual será o de aprender fazendo, típico do Escutismo como, de resto, de qualquer pedagogia activa.
Embora seja urna terra de sonho, mais do que um sonho, Drave - o Centro Escutista da Drave - é um projecto em curso. Há contactos estabelecidos, meios ,já angariados e a tinta já correu sobre o papel assinando contratos que são promessa.
Centro Escutista, porque animado pelo Corpo Nacional de Escutas, não o será só para os Escuteiros que, pelo contrário, esperam, a partir dai, confirmar a sua vocação de parceiros a ter em conta no diálogo e na reflexão que urge aprofundar em torno das questões do Ambiente e, particularmente, da Educação Ambiental. Esta perspectiva de abertura e diálogo é fundamental no Projecto do Centro Escutista da Drave, do Corpo Nacional de Escutas - Escutismo Católico Português, que quer empregar toda a sua experiência nas áreas da educação e do ambiente, para propor um espaço novo e um modo novo no panorama da Educação Ambiental em Portugal afirmando a sua originalidade.
Em Igreja, entendemos este Centro como uma resposta ao desafio da nova evangelização lançada pelo Papa João Paulo II. Sendo que Jesus Cristo - o Homem Novo - e o Seu Evangelho constituem as referências fundamentais da proposta espiritual a fazer a quantos, pela porta da educação ambiental, pretendam pôr em causa os valores e os critérios da sociedade dos nossos dias, alinhando na aventura de redescubrir um sentido novo para a vida.
Pe José Nuno Silva
Rui Pedro Sousa
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Artigo sobre o Centro Escutista da Drave na Fórum Ambiente (nº 11) de Fevereiro de 1995
Uma Aldeia perdida numa cova entre as Serras da Freita e S. Macário, situada no Concelho de Arouca, isolada do mundo, habitada apenas por dois anciãos da grande Família dos Martins. É um aglomerado de casas de xisto que se confundem com as cores da Serra, construídas em tomo de uma Capela que, de há algum tempo a esta parte, é branca e coberta de telha. No fundo da Aldeia, confluem três ribeiras. Ao seu redor, algumas leiras para cultivo e um velho sobreiral. Abundam as colmeias. As cabras habitam os montados, vigiadas por pastores das povoações das redondezas.
O acesso por meios motorizados é impossível.
Se parece perdida no espaço, esta mesma sensação não é menor em relação ao tempo. A degradação vai impondo as suas marcas e o desmoronar progressivo das velhas paredes, após os telhados, é um processo há muito em curso que ameaça a sobrevivência de uma Aldeia das mais belas entre as típicas Aldeias serranas do interior português.
É uma terra que parou. Onde o progresso não chegou. Onde os sons que se ouvem são apenas e ainda, os dos elementos da natureza aliados aos dos mais rudimentares instrumentos com que o Homem age sobre ela, numa relação estreita de harmonia e sobrevivência árdua: a água que corre e tomba pelos socalcos íngremes das encostas, a voz altiva e solene das rapinas e o canto amigo das pequenas aves, o vento a brincar por entre os poucos Castanheiros, Sobreiros e Pinheiros e arbustos rasteiros. A sobrepor-se, não mais que a voz cansada dos que a habitam, o soar lento e compassado da enchada ferindo a terra ou o chiar já raro do carro de bois.
Foi na Drave e para a Drave que alguns Escuteiros do Corpo Nacional de Escutas sonharam algo que agora se torna um projecto de dimensão nacional, no Escutismo Católico Português. A ideia, muito simplesmente, consiste em tomar Drave um Centro Escutista: recuperá-la arquitectonicamente, devolvendo-lhe a beleza original ameaçada pela ruína, e criar aí um Centro de actividades escutistas particularmente orientadas para a Educação Ambiental.
Já por várias vezes os Escuteiros do CNE estiveram em Drave, em actividades genericamente designadas por Rumos, organizadas pela Região do Porto, mas que progressivamente foram sendo conhecidas e participadas por outras Regiões. Nestas iniciativas ensaiou-se um modo de entender e praticar a Educação Ambiental que parte da consideração do próprio Homem colocado perante os seus valores e as suas opções fundamentais, num desafio com uma forte componente espiritual. A certeza que anima os que se dedicam a este Projecto do Centro Escutista de Drave é a de que só um Homem Novo, sujeito de um novo modo de pensar e de agir, será capaz de uma relação nova com o ambiente: relação de equilíbrio e de harmonia. Na Drave e nas serras circundantes, respira-se este equilíbrio e esta harmonia. Por isso é que este espaço serve os objectivos do Projecto e ele foi pensado lá e para lá.
Dimensão essencial do que se pretende fazer passa pela reconstrução arquitectónica e pela preservação do património cultural. As origens de Drave perdem-se no tempo. Contudo, e o isolamento da Aldeia pode explicar isso, é notável a fidelidade à mais pura tradição das técnicas de construção, mesmo nos edifícios erguidos já neste século. Com excepção da Capela dedicada à Senhora da Saúde, rebocada e coberta de telha, apenas o xisto e a madeira dão forma e matéria ao espírito do lugar. A manutenção dessas técnicas, bem como do tipo de mobiliário existente e das alfaias agrícolas ainda em uso apresentam-se como tarefas a ter em conta na realização do Projecto do CNE, que conta, para isso, com a colaboração de técnicos especializados em cada área, para além de, como é evidente, prever a integração, no trabalho, dos artista da região, que ainda detêm o saber tradicional que venceu a dureza e a inospitalidade da Serra e foi capaz de erguer, irmã com ela e nela perfeitamente enquadrada, esta bela Povoação.
Entre as acções a levar a cabo para permitir o acolhimento daqueles que queiram desfrutar da beleza de Drave e do seu espaço envolvente, ou participar nas actividades a realizar, será a construção de um local de acampamento. Este será necessariamente discreto, ligeiramente afastado do centro da aldeia, aproveitando o sobreiral ou alguma das leiras mais afastadas e cujos equipamentos obedeceriam, obviamente, às características do lugar.
Em perspectiva estão, já, algumas actividades adequadas ao espaço e às finalidades prosseguidas pelo Centro. Algumas serão de âmbito sócio-cultural, relacionadas com as práticas rurais tradicionais, como a ceifa, ou a desfolhada e a vindima, ou o fabrico do pão, do queijo e dos fumados, do linho e da lã ou a matança do porco, seja na Drave, seja nas aldeias da vizinhança.
Outras serão mais voltadas para a relação com a Natureza, como sejam os circuitos pedestres, as zonas de escalada, os percursos de bicicleta de montanha, de orientação, os Trilhos de Descoberta da Natureza, os Raids Aventura, a descida de rápidos e outras ainda a definir.
Um terceiro tipo de actividades será o das especificamente preparadas para cada Grupo, caracterizadas por uma procura consciente - explicitando o que nas outras está implícito dos valores da Educação da Ambiental e da relação do Homem com a Criação.
Também aqui o modo de proceder habitual será o de aprender fazendo, típico do Escutismo como, de resto, de qualquer pedagogia activa.
Embora seja uma terra de sonho, mais do que um sonho, Drave - o Centro Escutista da Drave - é um projecto em curso. Há contactos estabelecidos, meios já angariados e a tinta já correu sobre o papel, assinando contratos que são promessa.
Centro Escutista, porque animado pelo Corpo Nacional de Escutas, não o será só para os Escuteiros que, pelo contrário, esperam, a partir daí, confirmar a sua vocação de parceiros a ter em conta no diálogo e na reflexão que urge aprofundar em tomo das questões do Ambiente e, particularmente, da Educação Ambiental. Esta perspectiva de abertura e diálogo é fundamental no Projecto do Centro Escutista de Drave, do Corpo Nacional de Escutas - Escutismo Católico Português, que quer empregar toda a sua experiência nas áreas da educação e do ambiente, para propor um espaço novo e um modo novo no panorama da Educação Ambiental em Portugal, afirmando a sua originalidade.
Pe José Nuno Silva
Rui Pedro Sousa
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Entrevista do Pe Nuno à revista A Flecha nº 2, Outono 1995
...que passado? ...que futuro? Drave, depois dos Rumos, o projecto de um centro dedicado à dimensão espiritual do Escutismo.
Padre Nuno, como é que conheceu a Drave? Como é que eu conheci Drave? Levaram-me lá quando andava à procura de um espaço para realizar os Rumos do Homem Novo, edição de 1992; fomos levados pelo pároco de Covelo de Paivô, o Padre Peres. Fomos lá pela mão de um sacerdote, acho que indirectamente foi o dedo de Deus que lá nos levou.
E como é que lhe apareceu a inspiração de fazer ali um Rumos? Não me apareceu a inspiração. Andava à procura de um lugar que estivesse de acordo com o objectivo e finalidade do Rumos e já não me lembro muito bem como surgiu a ideia daquilo. Por outro lado. Andávamos também à procura de um lugar sonhávamos com um centro escutista dedicado exclusivamente a essas coisa do Rumos; a isso de descobrir cultivar e aprofundar a consciência da dimensão espiritual que o Escutismo tem em si mesmo e tem ainda mais se é escutismo católico. Juntou-se uma coisa com a outra aquando da experiência do Rumos do Homem Novo de 1992. A Drave parecia-nos reunir condições para realizar o Rumos e depois pareceu-nos reunir condições para a criação do tal centro.
E os três Rumos que se fizeram foram todos feitos na Drave, nunca se mudou o sítio... Não. O primeiro Rumos não foi na Drave. O primeiro Rumos foi o "Rumos da Consciência", antes ainda de surgir a nova metodologia educativa da IV secção e foi na Serra da Cabreira, Só depois é que passámos para a Drave; a partir daí foi sempre em Drave e arredores.
E a parte da Educação Ambiental, como é que apareceu a ideia? Quem é que estava a desenvolver este projecto? Apareceu a ideia porque de algum modo a questão ambiental oferece-nos um ponto de partida global; isto é, na Educação Ambiental manifesta-se claramente a crise global que o mundo atravessa pondo em causa muitos dos nossos modelos, dos nossos critérios, muitas das opções que a civilização de que somos filhos foi fazendo. E é deste pôr em questão que podemos começar então rumos de conversão, rumos para a construção de um Homem Novo já que o homem envelhecido deste tempo está a envelhecer o mundo também. O raciocínio é simples: podemos dizer que o homem velho faz um mundo velho; o Homem Novo fará um mundo novo. Partimos por isso de um mundo envelhecido para chegarmos a constatar quando é que o homem faz o mundo velho e porquê. Podendo depois partir, então, para o Homem Novo fará um mundo novo. Tudo isto minado pela figura de Jesus Cristo, o verdadeiro Homem Novo que S. Paulo apresenta como modelo para os Caminheiros.
Eu tinha ficado com a ideia de que era ao contrário, que se utilizava a Natureza como uma forma de inspiração, como um modelo de pureza, como uma maneira de encontrar Deus e a partir dela procurava-se alcançar a dimensão espiritual do Escutismo... Essa é outra via, não é uma via contraditória. É essa a via, mas essa experiência da Natureza de que tu falas, é a experiência feita por gente que vai da experiência do asfalto, do ruído, da selva urbana e que, porque vai desta experiência, da incapacidade de descobrir um rumo no meio desta selva, ao chegar à lição de equilíbrio entre o homem e a Natureza que na Drave transparece, é capaz de partir daquele equilíbrio, daquela harmonia, daquela paz, daquele silêncio, para a experiência de Deus; é capaz de partir da experiência de criação para a experiência do Criador. E parte tanto mais quanto mais tiver feito a experiência do urbano, a experiência da civilização que já é pouco civilizada, que é muito desequilibrada. Portanto as coisas não se contradizem, pelo contrário complementam-se. Não se pretende com um projecto destes alienar as pessoas e desenraíza-las e tirar-lhes a consciência de que a missão que têm é a missão no mundo, no meio dos homens. Pelo contrário, o que se pretende é criar oportunidades para que as pessoas se distanciem, reflictam e regressem capazes de viver e propor uma alternativa a esta filosofia de vida. É isso que a Drave quer ser.
E até que ponto é que esta equipa de Drave está pronta a ir para poder levar este projecto por diante? Este projecto é um projecto de "ir indo e ir vendo" aquilo que é possível. Neste momento, estamos empenhados numa fase preliminar que é a de ir comprando tudo o que é possível, angariando os fundos necessários e fazendo as compras. A par disso não pára também o trabalho de reflexão, de aprofundamento sobre os objectivos que nos movem. Mas em relação à configuração definitiva do projecto e do centro, tudo isso é ir indo e ir vendo. Neste momento é impossível dizer como é que vai ser, tudo vai depender daquilo que conseguirmos.
O Padre Nuno acha que dispondo dos meios materiais podemos ter os meios humanos? Não, acho que são duas coisas completamente diferentes. Uma coisa são os meios materiais para comprar a Drave e fazer a recuperação arquitectónica que é necessário fazer; outra que estão diferentes é a das pessoas que darão corpo a este projecto. São coisas distintas. Agora, a experiência que já há destes anos, pelo menos a mim ensinou-me que não podemos querer que haja gente que se entregue e se dedique a isto se não houver capacidade material de fazer disto um projecto realizável. Não podemos iludir ninguém, por isso estamos a tentar criar condições na certeza também de que as coisas estão a aparecer, as pessoas estão a amadurecer.
E a experiência que tem trazido dos jovens, o que é que indica de reacção em relação ao projecto e como é que eles estão a acolher estes Rumos? Os jovens são absolutamente favoráveis a isto porque os jovens estão absolutamente disponíveis para acolher um sentido global para a vida, que é o que falta. De facto as reacções que tivemos e que estamos a ter ao longo deste tempo todo são absolutamente favoráveis e em todo o país não falta quem pergunte quando é que torna a haver Rumos. Isto dá força mas também nos responsabiliza porque sabemos que a proposta a fazer tem de ser muito consistente muito sólida e muito verdadeira.
Acha que os jovens se ficam apenas pelo acolhimento do projecto, por se sentirem bem naquela altura? Achaque o que os motiva a quererem ir ao Rumos é arranjar uma altura de inspiração em que se ponham em causa as coisas, em que se sintam bem, ou acha que eles já conseguem pôr em prática os ideais? Tudo depende da situação e das circunstâncias de cada um, mas muitos há que são consequentes com a inspiração e que conseguem pôr em prática o ideal que o Rumos, se calhar não lhes deu, mas pelo menos ofereceu a oportunidade de aprofundar.
(...)
Fiquei com a impressão que as pessoas estavam mais preocupadas com a dimensão espiritual e se esqueciam das actividades a fazer ou dos meios a utilizar para desenvolver a finalidade do escutismo, que é o carácter. É certo que a dimensão anda um pouco esquecida e é muito difícil pôr em prática, todos os agrupamentos devem ter essa dificuldade, mas não será que também se está a subvalorizar a parte complementar do escutismo? O vosso projecto de Educação Ambiental tem duas partes: a parte espiritual a também a parte em que o homem pode actuar. Quando é que esta preocupação em relação à dimensão espiritual se tomou evidente? A dimensão espiritual é a finalidade última do escutismo, está relacionada com o carácter.
Mas uma pessoa não se pode apenas "alimentar" de experiências como os Rumos, tem de saber pôr as ideias em prática. Exacto, mas também ninguém quer reduzir a experiência escutista à experiência do Rumos. Isto é, se se faz uma determinada actividade com as características do Rumos e depois se cria um centro que visa proporcionar permanentemente experiências desse tipo ou orientadas pelas mesmas finalidades, isso não quer dizer que estejamos a reduzir o escutismo a isso. Isso seria uma ditadura, um monolitismo. Não é isso que se pretende, porque nós não ignoramos, nem podemos ignorar que há mais centros e que o escutismo é muito mais do que isso. Agora, porque não um centro escutista voltado para isso? Essa é uma dimensão a considerar, tanto mais que o centro assume essa preocupação com a dimensão espiritual não numa perspectiva espiritualista, mas numa perspectiva muito incarnada. Pegar até numa coisa que é das principais características o escutismo que é a Educação Ambiental. Pega nela e percorre o caminho até chegar à dimensão espiritual. Não há duas partes, há um caminho com uma meta: o caminho é a educação ambiental, a meta é a dimensão espiritual.
O Padre Nuno está perfeitamente consciente das dificuldades dos animadores em animar a fé? Sim, e essa é outra das preocupações que gostaríamos que estivesse presente neste centro, neste projecto. Gostávamos que fosse um espaço de formação orientada nesse sentido de dar formação aos dirigentes nesse campo, que é um campo fundamental e no qual estão insuficientemente preparados.
Em principio um chefe sozinho, por mais completo que fosse nunca conseguiria dar uma formação em todos os campos. A vossa proposta é complementar a atitude de formação dos chefes, queriam ajudar a formar chefes ou as duas coisas? As duas coisas. No escutismo, qualquer dirigente tem de se entender a si mesmo como agente de uma educação que quer ser integral, e se é integral tem de apanhar todas as dimensões do educando. A dimensão espiritual é uma dessas dimensões. Qualquer dirigente que abdique da sua dimensão de educador, também na dimensão espiritual está a ser infiel à missão que lhe compete.
Mas então porque é que este ponto fulcral do escutismo é uma coisa tão difícil de alcançar? As pessoas acham que precisavam de mais formação,... Pois precisam, porque graças a Deus o escutismo está perfeitamente mergulhado no tempo que vive, e este tempo que nós estamos a viver agora é um tempo de insatisfação filho de um tempo de profunda satisfação; isto é, agora os novos têm insatisfação em termos espirituais, estão insatisfeitos, querem mais e estão abertos e disponíveis para uma proposta espiritual, mas a geração de jovens anterior foi uma geração satisfeita em que não havia preocupação com a dimensão espiritual, mas apenas com as outras. Por isso, foi fácil que numa geração assim ~. escutismo sofresse uma certa redução dos seus objectivos e um certo esvaziamento enquanto proposta espiritual. Talvez essa insistência exclusiva nas partes técnicas tenha levado a que hoje tenhamos muitos dirigentes que não são capazes de fazer uma proposta deste tipo porque não a viveram.
Mas acho que não foi só isso, porque mesmo que lhes tenha faltado a parte espiritual, os dirigentes continuam lá, muitas vezes até com bastante sacrifício o nível pessoal. Há qualquer coisa que os faz estar Iá..., qualquer coisa de espiritual... Claro que há, mas há que saber se isso os prepara para serem formadores. Há um défice de formação e eles próprios reconhecem. Quando há formação de dirigentes, as primeiras lacunas verificam-se nas alíneas de formação da fé. Agora não há dúvida que o simples facto de se comprometerem e de se darem já é viver uma dimensão espiritual.
E que proposta faz para tomar os chefes capazes de transmitir isso aos escuteiros? Isso depende de cada um. Primeiro depende de sermos capazes de oferecer oportunidades de formação a dirigentes que queiram frequentar. Tivemos a experiência dos Novos Rumos, que era também para os chefes e as reacções foram mesmo surpreendentes. Foi na última grande reunião do Novos Rumos que houve, que urna das necessidades verificadas em termos de formação foi a da formação espiritual e da fé para os dirigentes. Se a animação e da fé espiritual acontece naturalmente para os elementos, ela tem de ser procurada pelos dirigentes de maneira intencional. Se o dirigente estiver à espera que ela aconteça, ela não acontece; se procurar que ela aconteça, ela acontece para ele de maneira intencional e para os elementos acontece de maneira natural.
Voltando de novo à Drave. O que é que mais o marcou? Aquilo é uma aldeia como as outras todas? Não sei... Agora já não é acidental. Ao falarmos do projecto agora dizemos o "projecto Drave" ou até somente Drave. Acho que aquela aldeia em concreto, aquela gente que lá habita, as experiências tidas em concreto tornaram o projecto indissociável do lugar. Drave diz aquilo que o projecto quer dizer. A Drave atesta por si mesmo, pela sua arquitectura, pela sua morfologia, pela relação daqueles que a habitam, pela sua Natureza, a possibilidade de uma relação do Homem com o Ambiente, com a criação e com o Criador. Uma relação equilibrada, harmónica, urna relação de mais verdade. Se calhar é por isso que é a Drave poderá vir a tornar-se urna aldeia desabitada, mas nós conhecemos Drave como uma aldeia ainda habitada por dois anciãos, o senhor Joaquim e a dona Aninhas, da família dos Martins. Dois anciãos que fazem parte daquilo, por isso assumem o isolamento, assumem viver lá sozinhos longe de tudo e de todos, porque fazem parte daquilo, daquela aldeia, daqueles campos, daquela serra, daqueles três ribeiros que se juntam todos ao fundo da Drave fazendo um riacho. E é esse fazer parte, é esse estar embarcado no pedaço de terra que se habita, solidário com esse pedaço de terra, é essa solidariedade entre a primeira das criaturas, que é o Homem, e a criação inteira e é engraçado porque o lugar de maior ligação daqueles dois anciãos à aldeia é a capela, é esta vinculação ao espaço da criação que se habita- e ao Criador que a Drave diz. e é isto que o nosso projecto quer dizer. Neste tempo de confusão em que está completamente desequilibrada a relação do Homem com a criação e com o seu Criador, e por isso também consigo próprio, nós descobrimos a Drave e aquelas duas pessoas que nos ensinam muito. Eles são capazes de estar lá os dois sozinhos, mas quem de nós hoje é capaz de estar SÓ, sem ruídos, sem barulho? Eles vivem harmonicamente consigo próprios, com aquilo que os rodeia, com o próprio Deus. É esta harmonia da pessoa consigo, com a criação e com o próprio Deus basta ver o acolhimento de que eles são capazes quando nós lá vamos que importa transmitir, propor às novas gerações que estão de facto insatisfeitas com este mundo desequilibrado. É por isso que é a Drave, e se calhar se fosse impossível ser em Drave o projecto ficava pelo caminho. Não é por acaso que neste momento se chama o "projecto Drave ". É fundamental a re1ação da pessoa que se aprende com aquele casal que ali vive.
Mas noto um pouco de insegurança da parte deles em relação àquilo que nós pretendemos fazer com aquele pedaço de terra que afinal é deles. Eles têm confiança nos escuteiros, e disso não tenho dúvidas neste momento. A experiência do Rumos e daquela gente toda lá foi também muito importante para eles. Eles próprios o disseram mais do que uma vez. Mas é claro que eles temem, afinal vivem ali sozinhos e temem tanta gente, tanta publicidade.
Um grande e indispensável projecto que devido a sua dimensão e complexidade vai levar algum tempo a levar acabo mas que com a ajuda de todos vamos gostar de ver concluído.
Revista A Flecha nº 2, Outono 1995, Agrupamento 449 – Santíssimo Sacramento
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